quarta-feira, 15 de junho de 2016

Quebrando a banca de Roqueiro

Bem amigos, o que vou narrar agora é uma história verídica que aconteceu em 01 de julho de 1986, na festa de aniversário de 10 anos da fundação da Rádio FM Jovem Pan 100,9 de São Paulo.

Como dever de casa, é normal hoje em dia confirmar as histórias que possamos escrever hoje, com consultas pela internet, onde raramente não se encontra o que procura, mas para esta história verídica, além de não conseguir consumar mais dados para autenticar algumas informações, vou conta-la com a maior precisão possível, afinal o roqueiro de banca quebrada sou eu mesmo e essa história vivenciei pessoalmente.

Para entender o roqueiro, vou detalhar um pouco o seu perfil, nascido em 1968, filho de produtor musical da gravadora Copacabana, começou estudando música desde os 5 anos de idade, as teclas desde sempre a sua paixão, piano seu primeiro instrumento. Cresceu ouvindo todos os estilos de música, principalmente as clássicas, mas aquelas guitarras barulhentas que o primo mais velho ouvia com Led Zeppelin, Deep Purple, Black Sabbath, Rolling Stones, mexia com ele.

E o amor pelo Rock pesado foi uma consequência natural, mesmo menor de idade em uma época que não tinha este tipo de exigência para assistir shows internacionais, assistiu no estádio do Morumbi, Peter Frampton, Queen, Kiss e para se consagrar como um grande roqueiro, assistiu vários dias do primeiro Rock in Rio em 1985, tudo para assistir ídolos como, ACDC, Iron Maiden, Yes entre outros.

E assim podemos finalizar o perfil desse egocêntrico roqueiro, que por estudar música desde os 5 anos de idade, e como todo garoto, focava em uma vertente só, esforçava-se para ser o melhor, mas sem perceber e sentir a realidade que estava em sua volta.

Quando soube do grande Show que a Rádio Jovem Pan faria no seu aniversário no Ginásio do Ibirapuera em São Paulo, principalmente pela presença da “Banda 14 bis”, banda de rock tupiniquim de Minas Gerais e que na sua formação ainda continha Flávio Venturini, não resistiu e chegou muito cedo para ser um dos primeiros.

Ibirapuera lotado e as bandas foram se apresentando, quando a banda “Ultraje a Rigor” entrou no palco, plenamente aplaudida, afinal a banda sempre teve um Rock legítimo tinha sido preterida para tocar no Rock in Rio no ano anterior, foi um dos fatos negativos inclusive, afinal estavam nas paradas de sucesso de todo Brasil, a indignação foi inclusive demonstrada pela banda “Paralamas do Sucesso” que no seu show no Rock in Rio, tocaram “Nós Vamos Invadir sua Praia”, um dos maiores sucesso do Ultraje a Rigor. E para agradecer o carinho recebido, abriram o show tocando a música “Óculos” do Paralamas, e todos que ali estavam aplaudiram efusivamente, por entenderem plenamente o que acontecia.

Após o Show sempre dinâmico e com o verdadeiro Rock dos Anos 80 do Brasil, e no seu próprio tempo do Ultraje a Rigor, entrou o 14 Bis, a banda que este roqueiro ainda com banca esperava. E assim foi, a melodia harmoniosa das músicas da banda tupiniquim abraçava a plateia, que inebriava e todos os casais que ali estavam, beijavam-se apaixonadamente ao som de “Todo Azul do Mar” :

“Foi assim, como ver o mar
A primeira vez que meus olhos se viram no seu olhar

Não tive a intenção de me apaixonar
Mera distração e já era momento de se gostar

Quando eu dei por mim nem tentei fugir
Do visgo que me prendeu dentro do seu olhar
Quando eu mergulhei no azul do mar
Sabia que era amor e vinha pra ficar”

E este roqueiro inebriado, ainda arrogante dentro do seu pequeno mundo do roque, viu que após a banda que o fez sair de casa para disputar espaço entre vários malucos por grandes shows, ia tocar um carioca marrento chamado “Lulu Santos”, aquele mesmo que fez parte da banda Vímana e diziam que tinha causado muitos problemas, cantava com um sotaque carioca, que ao ouvido paulistano bichinho de goiaba incomodava demais, o mesmo Lulu que tocou no Rock in Rio mas não em um dos dias que esteve. Não tinha o que fazer, afinal pra poder assistir as bandas preferidas chegou cedo para estar à frente do palco e não dava pra ir embora com aquela multidão as costas, tinha mesmo que suportar “Lulu Santos”.

Quando aquele carioca da gema subiu ao palco e a arrogância preconceituosa desse que vos descreve estava no máximo, o tal Lulu começou a dedilhar sua guitarra, a tocar “Tudo Bem”, “Como uma Onda”, “Tudo Azul”... sua presença de palco levantou a galera inteira, trouxe todo mundo para si. É, trouxe todos mesmo e quebrando a banca desse orgulhoso roqueiro, mostrou com sua energia, que música e sucesso faz bem para qualquer um, até para os mais fechados dentro do seu universo.

E agradeço até hoje ao Lulu Santos por mostrar-me, que música tem alma, mas não tem cor, raça, credo e nem nacionalidade, continuo um roqueiro e amante do Rock Nacional dos anos 80, mas hoje, estou aberto para qualquer um tocar minha alma, contanto que possa cantar.


Marcelo Bello de Oliveira

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